Amizade
Saímos do filme encantadas. Surpresas com essa capacidade que tínhamos, às vezes, de nos comover com tão pouco. Mas não era pouco. Era a medida certa dos nossos sonhos. O filme nos apontava ideais e, de alguma forma, também buscávamos aquilo. Éramos quatro. Fazíamos planos como se não houvesse amanhã. Apenas o futuro à nossa espera e os nossos mesmos planos, antigos e novos. Fazia frio. Seguimos em busca de um café.
No carro, a velha brincadeira-pop de "o que essa música te lembra". A primeira: Don´t Look Back In Anger - Oasis. Aquela festa do verão passado. Todas as idas de carro para qualquer festa. Um romance de férias. E mais algumas noites em claro. Uma sensação de algo próximo e também distante. Em seguida toca Across The Universe - Beatles e, por um momento, tudo é silêncio. Uma das músicas mais lindas já feitas. Uma canção que sempre lembra algo de bom, algo triste, algo do passado ou nos remete a tempos desconhecidos. Seguimos cantando: nothing is gonna change my world...
Fomos até o aeroporto. Sentamos num café de onde dava para ver quem chegava de viagem.
- Dois expressos, um capuccino grande, um chocolate quente, e quatro pães de queijo, por favor.
Conversas que passeiam por relacionamentos, rotina de trabalho, livros e até filosofia - cotidiana e existencial. Uma fala do cara que acabou de conhecer, enquanto a outra queixa-se de um caso mal resolvido. Uma cita romances de um livro que andou lendo, enquanto a outra ressuscita Heidegger e Platão. Nas conversas entrecruzadas do dia-a-dia, mundos paralelos que se complementam. A clara necessidade mútua, uma da outra. Porque nas distâncias que se alargam pela vida, basta a certeza de que a outra estará ali - onde sempre esteve.
Pessoas chegavam de viagem. De onde será que vinham? Bagagens nas mãos e outras no olhar. Olhar de reencontro, olhar de procura, olhar de passeio, alguns de dúvidas, outros de plenitude. Ficamos imaginando aquelas vidas, as histórias, os caminhos por tantas estradas percorridas. V-idas e vindas.
- Mais dois expressos, por favor. E um pedaço da torta de chocolate.
O mundo naquele momento parou ao nosso redor. Discutíamos literatura, como falávamos de amor. No fundo, era sobre a vida que meditávamos. Nada mais importaria se nos mantivéssemos assim: seguras nas descobertas umas das outras. Descobertas de quem conhece bem o outro lado, o mesmo olhar, as duas mãos e as histórias de cada uma. Mais tarde, olhando os aviões partirem veio a certeza: aquela noite seria mágica por ser mais uma e, ainda assim, única... porque era nossa.
Isso aqui tá meio paradão, né. Há tempos venho "evitando" e me "forçando" a encarar esta tela em branco. Muitos sentimentos misturados pulsam dentro de mim e escrever é sempre uma forma de me traduzir, para mim mesma. Meu exercício de escrita anda a passos lentos... mas não deveria. E eu tenho pensado em muitas coisas, tenho vivido alguns sentimentos, mas de alguma forma isso não cai no papel... nem na tela. Acho que são sensações e lembranças das quais não consigo extrair palavras. São muitos sonhos, planos, vontades. Fica tudo embolado cá dentro e eu sigo andando. Tropeçando aqui ou acolá, mas de pé na estrada. Eu tenho meus momentos, minhas fases. Quem me conhece sabe que sou feita de humores, instantes e tantas outras pequenas coisas, que podem durar cinco minutos ou uma vida inteira. Tem dias que um nó aqui dentro parece querer botar pra fora um universo de abstrações... pedaços meus que nem eu posso explicar. Acho que andei levando Clarice Lispector muito a sério. De qualquer forma, hoje estou tranqüila. Só queria mudar um pouco a casa, espanar a poeira e recomeçar junto com o agora que se transforma a cada instante. E lá vou eu, enquanto sou esta, porque daqui a pouco serei outra...
*Imagem: Uma Simples Casa - Carlos Afonso