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Sexta-feira, Março 25, 2005
O Gosto
Era o terceiro cigarro que ele acendia naquela noite. Na verdade, em pouco menos de duas horas. O computador à frente dele exibia os trabalhos incompletos, à espera. Estava fazendo o design de um site comercial e havia empacado ali mesmo, nas ilustrações. Era aquele cheiro de café que vinha - não se sabe de que recôndito canto de seu apartamento - atrapalhar a vida.
A vinte e sete minutos dali, numa agência de publicidade, ela segurava uma caneca plástica, companheira inseparável das noites de trabalho. Bebia o café, mas não podia impedir que um gosto insistente de cigarro viesse à sua boca, a cada gole que dava. Malditos cigarros, pensou. Mas ela não fumava. E foi aí que descobriu: era tarde demais pra voltar atrás. Já estava apaixonada por aquele que ela sabia não lhe servir. Vai dar tudo errado, eu sei - dizia a si mesma. Mas logo retrucava: quer saber, foda-se o mundo, não há mais o que fazer.
A verdade eles souberam naquela tarde, sentados na calçada em frente a uma livraria, quando ele lhe disse que não acreditava que nada daquilo estivesse acontecendo por acaso. Ela não lhe deu qualquer resposta, senão um olhar menos perdido do que à procura. Ficaram em silêncio por um bom tempo. Um pouco frio ali fora, mas não queriam estar em outro lugar. Mesmo que não entendessem bem o que aquilo tudo significava.
Meses de encontros desencontrados, palavras rápidas, poucos e significativos olhares. Até o momento em que um se rendeu ao mistério do outro. E quando aconteceu foi de vez. Não houve muito espaço vazio naquelas noites em que estavam juntos. Uma energia muito forte atraía um aos braços do outro, sem qualquer explicação lógica ou até sentimental. Ao se verem, a razão desaparecia e ficava apenas o olhar sustentado, persistente, transbordante.
Ao caminhar de volta pra casa, no fim daquela tarde de inverno, um turbilhão de pensamentos não deixaram de lhe assaltar a mente. O tempo todo ela sabia que nada daquilo poderia passar de uma aventura. Um caso, apenas um caso, repetia a si mesma. Era capaz de enumerar todas as mil possíveis razões para aquela relação não dar certo. O temperamento dele, o temperamento dela, as tantas diferenças na forma de levar a vida ou enxergar o mundo, ou mesmo aquele vício idiota. Só que, no fundo, nada disso dava conta de aplacar o seu desejo maior de se entregar a ele. Sim, tinha medo. Mas, ao se jogar de cabeça, o melhor não estaria na queda?
*
Ele tinha um cigarro na ponta dos dedos
E uma vontade de beijar muito louca
Ela tinha umas palavras presas na ponta da língua
E um gosto dele perdido na boca
*
Nas caixas de som do seu computador tocava o Franz Ferdinand e ele já não conseguia se concentrar nas ilustrações. Aquele rosto de menina perdida num corpo de mulher não lhe saía da cabeça. Ele também havia jurado que não iria se apaixonar, que não deveria cair aos pés dela. Mas fora tudo tão de repente, tão rápido, inesperado. Ele sabia que para ela também era tudo novidade, e espanto [ele bem sabia que ela jamais se imaginou ao lado dele]. Tinha pegado também ele desprevenido. De qualquer forma, a decisão estava tomada: ele a queria. Mais do que qualquer coisa, naquele exato momento, ele pensou.
Ao toque do telefone, ela saltou os olhos pela agência vazia; era tarde. O susto foi logo substituído pelo frio na barriga, ao constatar o número dele no visor. Demorou um pouco ainda a atender, mas quando disse "alô" tudo o mais que poderia ser dito já estava consumado, naquela simples primeira palavra. E, depois, só o agora lhe interessava. Ele, que havia pedido tanto que ela vivesse mais o instante, não precisava mais pedir nada. E ela, que jurava que quebraria a cara com aquele cara que lhe fazia tremer as pernas e lhe causava reviravoltas na barriga, não mais se importava.
Mais tarde, ao som de "Cannonball" do Damien Rice, eles sentiram que havia algo mais naquele abraço. Um abraço que durou a eternidade daqueles quatro minutos e meio. É assim quando uma música toca mais fundo, eles adivinharam. E foi aí que ela deixou escapar: não poderia mais fugir dele, mesmo que quisesse. Sabia que, a partir de então, o cheiro de um cigarro qualquer sempre lhe traria um gosto dele na boca.
postado por: Luisa 12:30 AM
Palavrinhas:
Domingo, Março 13, 2005
Me diz quem te ensinou a viver...
Eu quero poesia. Doce poesia de viver. Ainda que este viver se faça em sofrimento e lágrimas. Disso não tenho medo. Estou aqui pra isso mesmo: correr um risco, qualquer que seja. Só assim poderei me sentir livre, à deriva da vida que mareja. Não quero mais a facilidade de estar inerte, segura demais pra me mover.
Quero qualquer coisa que me sacuda, me balance, me instigue e me provoque os sentidos. Quero que você [qualquer um] olhe nos meus olhos quando fala comigo e me diga coisas minhas das quais não faço idéia. Quero sentir que estamos na mais plena sintonia do instante qualquer. Eu preciso viver o momento e quero a flor do instante a guiar meus passos.
Ah, os discursos, sempre tão gratuitos, tão tragáveis... e eu, cá, a procurar sentidos outros na tua fala. Estou me enchendo de definições, pobres declarações e palavras vazias. Não, não quero repetir a retórica dissimulada dos que já não se importam com nada mais. Não quero ser essa que se perdeu em si e esqueceu que lá fora há tanto mais. A que se guardou de todo mal e não se rendeu ao risco de viver.
Quero transcender a minha própria lógica para seguir o caminho adiante. E não precisar fazer escolhas, senão vislumbrá-las maduras, no alto de uma árvore, à beira da estrada. Quero a viagem, única, válida, real e metafórica. A epifania salutar do sentimento que ultrapassa o sentimento. Da visão que vai além do olhar. Preciso do peso da vida sobre meus ombros para, enfim, alcançar a leveza dos que sabem chorar.
Eu quero que as dúvidas me tragam a dose de incerteza necessária pra viver com graça. O previsível adormece a alma e eu não quero mais. Quero a instabilidade apenas na medida das descobertas e das mudanças de rumo. Quero saber bem o que quero. Quero a poesia inerente: "o gosto do vivo"*. E quero você no meu caminho a me dar direções... quero a tua poesia e o teu encanto. Quero ser o teu encontro.
A mim, "falta apenas o golpe da graça"* que clamo a ti. Por favor, não me ensines a morrer. Deixe que o tempo me leve assim...
*A Paixão Segundo G.H [CL]
postado por: Luisa 1:34 PM
Palavrinhas:
Terça-feira, Março 08, 2005
atenção
Arnaldo Antunes / Alice Ruiz / João Bandeira - 2001
Atenção
Essa vida contém cenas explícitas de tédio
Nos intervalos da emoção
Atenção
Quem não gostar que conte outra,
encontre, corra atrás,
enfrente, tente, invente
sua própria versão
Aqui não tem
segunda sessão
postado por: Luisa 5:48 PM
Palavrinhas:
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