O Avesso da Palavra

Quarta-feira, Março 29, 2006


para além de tudo o que eu te falo...

Não importa o quanto você saiba sobre música ou quantos livros tenha lido, nem quanto conhecimento tenha de arte. Nada, absolutamente nada disso, nem mesmo sua formação acadêmica ou os cursos de língua estrangeira que tenha feito, lhe ensinarão como agir em um relacionamento. E, mais ainda, nenhuma dessas coisas lhe fará sentir o que só uma pessoa é capaz de provocar em outro ser humano. E pra isso não há receita. Não há fórmula mágica ou solução para finais felizes como a televisão gostaria de nos fazer pensar. A nossa vida é um pouco mais complicada que os romances de folhetim. E como são intrigantes esses tais relacionamentos entre duas pessoas. Chega um momento em que não há mais espaço para as idealizações e nos damos conta de estar vivendo uma relação nada mais do que real. É nessas horas que o sentimento nos prega peças. Afinal, é mesmo tudo um pouco confuso quando se tem muitas idéias na cabeça e um coração inconstante. E tudo isso não seria a tal insegurança? Até que ponto poderei definir o que mais importa num relacionamento sem estar segura quanto a mim mesma? Por isso, é admirável uma pessoa cujo sentimento seja tão genuíno que não caibam racionalizações. Talvez você possa me ensinar a ser assim... me ensinar um pouco do teu dom, do teu mundo e da tua vida. Sabe, às vezes cansa ser como eu. Cansa tanta lembrança, toda essa antecipação e, ainda, pequenas vontades. Cansa só de ficar imaginando o que sou, quem eu era, o que seria e o que serei daqui pra frente, estando ao seu lado. E aí eu choro e penso que não sei nada a respeito disso, e um dia talvez até saiba, mas por enquanto estou apenas tentando nos descobrir nesse emaranhado de fios que tecemos ao nosso redor. E aí você vem e me abraça e, por mais que eu não entenda mesmo de nada, teu carinho me comove muito mais que qualquer filme bonito. Porque, você vê, nenhuma ficção ou fantasia é capaz de superar o que nós temos aqui e agora, eu e você.

postado por: Luisa 12:14 PM Palavrinhas:


Terça-feira, Março 14, 2006


Dia Nacional da Poesia

Desenho

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins susurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia.
Cantava canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

Cecília Meirelles

postado por: Luisa 12:14 PM Palavrinhas:


Segunda-feira, Março 06, 2006


Encontro

Eles tinham um pacto. Ficariam juntos e se amariam até o fim de suas vidas. Não, o pacto não era bem esse. Eles se amariam para sempre, mas só ficariam juntos até quando desse. Você sabe, até quando rolasse. Chame de química, paixão, entusiasmo, como quiser. Não era bem isso que interessava a eles. O amor era algo tão natural, que nem mesmo precisava ser pensado; estava subtendido, implicitamente partilhado. Assim como era natural e tão simples que estivessem juntos. Como dois amigos de infância que brincam horas um com outro, sem se dar conta da amizade construída naqueles pequenos gestos. Portanto, seria assim: ninguém precisaria dizer nada e suas vidas já estariam entrelaçadas por todo o sempre - período tão curto para um simples mortal, é verdade -, mesmo que separados. Sim, eles sabiam que não poderiam manter a magia por tantos anos além. Eventualmente teriam de casar, ter filhos e tudo o mais. Mas ainda levava tempo para isso. Até lá outras tantas coisas ainda teriam pra viver. E nisso se sabiam não duradouros. Pressentiam o fim, assim como quem antecede uma despedida adiada. O consolo era mesmo as mãos muito próximas, sempre uma oferecendo carinho e aconchego à outra.
Um dia, podiam imaginar, aquilo já não seria presente. O restante seriam memórias de um passado recente e um livro na estante com dedicatória e lembrança da tarde em que discutiam uma poesia qualquer do Quintana. Iriam embora os corujões da noite, com as salas vazias dos cinemas, e ficaria o gosto por filmes em preto e branco adquirido ao longo do tempo juntos. Iria embora o sorvete ao pôr-do-sol, mas restaria a música do Caetano que jamais deixaria de ser deles. E onde quer que estivessem, à distância qualquer que se encontrassem, nada, nada mesmo, teria deixado de existir. Ainda que outros ocupassem, em qualquer momento, o lugar que um dia fora de um deles, pouco importaria. O amor, aquele cultivado por tanto tempo, é claro, estaria transformado. Talvez, quem sabe, em algo ainda muito maior. Um sincero desejo de felicidade e uma porta aberta aos conformes do tempo. O pacto selado, o acordo tácito, a aliança ou o laço, chame do que quiser, seria para sempre mantido. Entre eles, nada mais do que um céu azul e a certeza da esperança. Como o sabor agridoce de um romance europeu sem pretensões a finais felizes.

postado por: Luisa 11:52 PM Palavrinhas:


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