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Quinta-feira, Abril 20, 2006
À Janela
Olhando o carro dele partir, pela janela de seu apartamento, ela agora pensava sobre o amor. Melhor: questionava-se, como era de seu feitio fazer. Lembrava, porém, de uma conversa que tivera meses antes com umas amigas. Na época, a discussão teria parecido mais uma entre as tantas questões femininas que costumavam tratar, sempre de uma lógica tão pessoal quanto incorporada. Agora, pensando bem, ela se dera conta de que muito pouco sabia do que tanto falava ou defendia. Isso lhe causou um súbito estranhamento de si mesma. Sempre parecendo muito segura de si, sabia no fundo que não passava de uma daquelas edificações de fachada suntuosa, construída a fim de esconder um interior menor do que o previsto. Agora, revendo tudo isso, ficara desconcertada. E o pior: perante ela mesma, ninguém mais.
De volta ao café, naquela tarde fria de julho, ela sentada olhava de frente para as três amigas que lhe acompanhavam numa torta de funghi com tomates cereja. As conversas sempre pareciam mais interessantes quando regadas a uma boa bebida ou recheadas por uma boa comida. De qualquer forma, o assunto em pauta era o caso que uma delas estava mantendo com um rapaz; extra-conjugal, é claro. Estava casada há dois anos apenas, isso é fato. Mas lhe agradava a desculpa de que ele havia sido seu primeiro namorado, o único homem que tivera em toda a sua vida. De repente, o conto de fadas parecia ter se transformado num conto contemporâneo qualquer, onde o que antes parecia belo e imaculado hoje era motivo para umas boas risadas, uma pulada de cerca e alguns comentários duvidosos. Era quase necessário pedir desculpas por casar com o primeiro cara por quem se apaixonara. E ficava sempre aquela dúvida no ar... será? A sensação era como se houvesse jogado a sorte sem saber ao certo se o bilhete que tinha em mãos era mesmo o premiado. Nunca conferira por achar tão cegamente que não era preciso. Agora ficava a dúvida. E se... [esse era o pior pensamento que podia vir à mente].
De qualquer forma, as quatro reunidas tentavam achar soluções menos dolorosas para suas vidas pungidas em sentimentos tão contraditórios. Uma contestava que a amiga casada estava cometendo um erro terrível, a outra dizia que não via tanto problema desde que lhe servisse para alguma coisa, como melhorar a relação ou lhe fazer enxergar algo que evita. Nossa personagem principal, no entanto, não sabia ao certo onde se posicionar entre essas duas trincheiras. Decidiu-se, por fim, que não seria capaz de julgar o que a outra sentia e preferiu ficar quieta. Foi então que surgiu o amor como pauta da conversa. Era interessante como, para cada uma, um mesmo sentimento podia soar tão diferente. Para uma, o amor tinha ficado pra trás há muito tempo nos olhos perdidos daquele garoto - vez ou outra ela ainda vislumbrava fagulhas daquele sentimento ao longe mas sabia não poder tê-lo de volta. Para a outra, o amor era algo quase inatingível, romântico por demais, por isso preferível não tentar conquistá-lo. Para a terceira era a convivência diária que tinha em casa, mesmo que não fosse pleno.
Para ela, então, era aquilo que se encontrava nas entrelinhas, entre uma palavra e outra, entre gestos, olhares, mas, principalmente, o amor poderia ser pensado naquilo que não era dado nem exposto. Foi aí que percebeu, ao se dar conta que ainda olhava pela janela de seu apartamento uma rua vazia e um carro que não estava mais lá. Notou que, para ela, aquilo que chamavam relacionamento sempre havia sido mais que um jogo ou uma disputa. Aí estava seu erro. Numa competição qualquer para ver quem chegava primeiro [aonde quer que fosse], ela havia sabotado a si mesma. Esqueceu de si. De buscar um pouco mais além. Esqueceu-se das estratégias do início do jogo. Agora é tarde, pensou, afastando o olhar daquela janela por onde o amor tinha lhe escapado. Suas expectativas mais uma vez haviam sido frustradas. Mas por quem mais, senão ela mesma? Tinha por certo que daí em diante a disputa seria travada consigo própria [e que viessem as batalhas!]. Decidira há tempos que não queria ser tal qual a amiga cujo bilhete em mãos não havia sido conferido e, portanto, não sabia se era mesmo o premiado. Sua meta era maior. E, naquele breve instante de lucidez, qualquer alvo poderia ser alcançado por ela.
postado por: Luisa 5:04 PM
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Segunda-feira, Abril 03, 2006
Vista por baixo...
Ela sempre esteve lá. Mesmo antes que qualquer um ali chegasse, ela já marcava presença. Frondosa e imponente, como só as árvores largas e pesadas sabem ser. Por tantos anos ela excerceu seu papel: nos ofereceu sombra, ar fresco, beleza e, ainda, serviu de ninho aos passarinhos que por ali rondavam. Era enorme, em todas as suas medidas que fugiam ao nosso alcance. Majestosa, diante de todas as outras que pareciam muito menores ao seu redor. Verdadeiro espetáculo da natureza, ainda mais tendo em vista que ninguém jamais soube seu nome. Era anônima, desconhecida. Folhas, tinha muitas, vasta copa sobre nossas cabeças. Era ponto de referência e demarcava o lugar exato onde se situava a casa. Dera fruto e flores apenas uma única vez em todo o tempo que podemos constatar. E não foram poucos anos. Prova, talvez, de seu inegável mistério de árvore ou de sua provável discrição de vegetação. Não sairia exibindo o rosa pequenino e delicado de sua florescência a todo instante, é claro. Era preciso cuidado e dedicação para ter a oportunidade de vê-la. De qualquer forma, a questão toda é que ela sempre esteve lá. Sempre, até instantes atrás. Foi embora na carroceria de um caminhão. Não poderá jamais ser vista de agora em diante. Ela não estará mais lá, no mesmo local onde sempre esteve. Seu tronco, ou o que ainda restou dele, quase rente ao chão, contará que um dia existiu ali uma árvore que fora enorme, como só as árvores largas e pesadas sabem ser. Ela estará na lembrança de uma casa, que aparentemente é mais importante e precisou ser posta em primeiro lugar diante de raízes tão profundas. A mesma árvore que acolheu a casa e os passarinhos.
postado por: Luisa 1:57 PM
Palavrinhas:
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