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Quinta-feira, Novembro 23, 2006
180 minutos
O que são três horas? Uma longa espera ou um tempo que voa rápido? Um bom filme de duas horas e mais uma de bom papo e café. Um período de sol e água fresca, na praia. Uma tarde de compras em um brechó. Uma mesa, dois pratos e muitas idéias a serem discutidas. Uma fila de espera para um show bastante esperado. Um cartório cheio e alguns documentos para autenticar. Um passeio turístico pelos pontos principais da cidade. Em três horas de carro, chega-se a Aracaju, partindo da Linha Verde de Salvador. Em três horas, se fazem planos. Planejam-se viagens, cursos, vidas. Em três horas, escreve-se um texto bem longo, quiçá, tratados. Em três horas, damos continuidade à vida cotidiana. Acordamos, cuidamos da higiene matinal, comemos alguma coisa, levamos o cachorro ao veterinário, voltamos para casa e ainda aguardamos o almoço. Em três horas, lemos um livro. Só depende do tamanho dele e da nossa entrega. Porque, se em poucos minutos eu já disse tudo isso, imagine o que eu diria em três horas. Em quanto tempo você leu isso? E quanto ainda disponibilizaria para me escutar? Em três horas, dá pra ouvir três discos diferentes. E folhear mais de cinco revistas. Dá pra assistir duas séries de TV e mais dois telejornais. Em três horas, discute-se uma relação, provoca-se brigas e reconciliações. Três anos podem ir por água abaixo em três horas. Uma vida pode ser decidida nesse mesmo tempo. Duas pessoas podem começar a se gostar em uma, duas, três horinhas apenas. Vai saber. Em três horas pode acontecer de tudo, até mesmo, nada. Eis o ponto crucial em que cheguei: o início deste texto, inspirado em não mais do que três horas de nada o que fazer. Ao menos, ajudou a dirimir a espera pelo fim dessa jornada... falta agora apenas saber o que fazer nas duas horas e meia restantes.
postado por: Luisa 9:31 PM
Palavrinhas:
Sexta-feira, Novembro 17, 2006
Rubras
Foram as unhas vermelhas. Era o que ele sempre respondia quando lhe perguntavam o motivo primeiro de sua paixão por ela. Engraçado que alguns amigos não entenderam bem como tudo começou. Na verdade, até mesmo para ele foi tudo meio estranho. Em um dia, ela era apenas uma garota regular, a qual lhe despertava pouco ou talvez nenhum interesse. No outro, ela apareceu com aquelas unhas mal lixadas pintadas de vermelho e tudo pareceu mudar diante de seus olhos turvos e cansados. Tremilique, arrepio... desejo? Que sensação estranha aquela, ele pensou. Ela passou por ele tão alheia ao seu olhar de espanto, que isso apenas mexeu ainda mais com seu juízo. Putz! O que era aquilo? Desde esse dia, então, ele dedicou-se a exeminá-la mais atentamente, a percorrê-la curvas acima e abaixo. Passou a puxar conversa de forma que nunca antes teria feito. Simplesmente desconhecia que ela pudesse ser tão interessante. E não é que era mesmo? Tudo por conta de unhas vermelhas mal lixadas, quem diria! Depois, com alguma intimidade já conquistada, fez questão de saber que esmalte era aquele que ela usava. Uma mistura de licor com rubi, ela disse, e ele não entendeu nada mas, mesmo assim, fez cara de quem muito apreciava a combinação. Foi assim que tudo começou, ele contava repetidas vezes, sempre que aparecia a inevitável pergunta que casais apaixonados despertam nas pessoas ao redor. Hoje, sempre que desentendimentos e rotina parecem querer afastá-los, ela não titubeia. Pinta as unhas de vermelho, lixa umas, deixando outras mais compridas, e fica tudo certo. Ele a vê assim e, então, a chama primeira que acendeu-lhe o peito volta a flamejar outra vez.
postado por: Luisa 10:37 PM
Palavrinhas:
Quarta-feira, Novembro 08, 2006
A vida nos dá pessoas de presente. Pode reparar: acontece. Em primeiro lugar, aquelas através dos quais nascemos; a nossa família. Outras chegam depois. Vêm aos poucos. Algumas conquistamos, outras nos conquistam. Umas sempre saberemos onde encontrar. Porém, algumas seguem rotas diversas das nossas e, às vezes, por alguma razão, se afastam de nosso domínio. Mas a vida nos dá, volta e meia, sem nada cobrar, o acesso e o contato com um desses seres únicos. Alguém que, se soubermos bem aproveitar, modificará nossa existência em algum sentido. Mesmo que essa figura incrível e singular desça na próxima estação do trem, deixando para trás sonhos do que seria um dia.
Por que alguns se distanciam, mais do que permite o nosso desejo? Por que não é possível que permaneçam ao nosso redor, circulando nos mesmos espaços que antes costumávamos passar, entre as mesmas pessoas com as quais convivíamos? Talvez porque estático é uma palavra que não consta no dicionário da vida. O movimento é eterno e constante. Quantas voltas, idas, retornos, piruetas, cambalhotas fazem parte dessa trajetória? Montanha-russa, carrossel, roda-gigante. Aproveitemos o incessante pulsar de transfiguração dos instantes em memórias guardadas em gavetas. O que cada um nos traz de doce será marca eterna nos fios que nos tecem a alma. Não seriam o mais belo desse breve trajeto, esses presentes envoltos em laços de vida?
postado por: Luisa 11:26 PM
Palavrinhas:
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