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Terça-feira, Janeiro 30, 2007
diálogo do amoroso (des)entendimento
- olha, eu queria te dizer que desse jeito não dá mais.
- ahn? como assim?
- é, eu cansei.
- cansou de quê, querida? tá acontecendo alguma coisa contigo? qual o problema?
- lá vem tu, querendo apaziguar a situação...
- e o que há de errado nisso?
- tu não entende nada. o teu problema é exatamente esse: nunca há um problema pra ti.
- olha, você me desculpa, mas eu não tô entendendo aonde você quer chegar, meu bem...
- joão marcos, tu já se deu conta que em quase um ano de namoro a gente nunca brigou?
- que bom! isso é ótimo.
- bom?? como bom? olha, eu não sei você, mas eu não conheço um casal que tenha sobrevivido a tanto tempo junto sem uma brigazinha sequer.
- é, os que você conhece sempre acabam se separando após uma briga.
- mas aí eles voltam atrás, fazem as pazes e fica tudo lindo de novo, entende?!
- e os mesmos problemas continuam...
- joão marcos, o negócio é o seguinte: não ter problemas em vista já é um dos grandes, enormes até!
- você tá de tpm? é isso?
- e se eu tiver? isso te incomoda?
- não, claro que não, querida. eu entendo, toda mulher passa por isso.
- putz, era só o que me faltava.
- você quer um chocolate?
- não enche.
- você quer brigar mesmo, né? impressionante.
- por quê, vai encarar?
- não. vou dormir. boa noite, tchau.
(enquanto ela fica lá parada, com cara de tacho, ele vai deitar sabendo, no fundo, que venceu mais uma briga na arte cotidiana de conviver com uma mulher)
postado por: Luisa 10:26 PM
Palavrinhas:
Terça-feira, Janeiro 02, 2007
Passagem Do Ano - Carlos Drummond de Andrade
O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral
Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.
O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus...
Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já se expirou, outras espreitam a morte
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.
postado por: Luisa 10:12 PM
Palavrinhas:
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