O Avesso da Palavra

Quarta-feira, Agosto 29, 2007


No risco claro-escuro do tempo, eu te chamei. E você veio. Veio como quem não atende a chamados, mas comparece diante de pensamentos os mais profundos. Eu procurava por aquele disco perdido do qual não lembro o nome e você me mostrou poesia pintada nos dedos. Pensei em ir embora, mas você me chamou para passear. Temi pelo inesperado e fui tomada por surpresa inebriante das letras de canções ausentes. Ele tocava bossa no violão enfeitiçado, enquanto eu chorava lírios do campo. O mar da baía à varanda nos enchia os olhos de segredos. Eram tardes de azaléias azuis, céu laranja e grama molhada. Gostávamos de trocar confidências através de palavras alheias. Nem nos sonhos mais distantes você teria vindo como nos versos noturnos que imaginei para nós dois. Mas aquela dedicatória ficou em cima da mesa, para sempre o livro aberto na página que contava a nossa história. Doce narrativa de ficção e melodia. E, baixinho, ao som da Billie Holiday, eu dizia: já já vai passar...

postado por: Luisa 11:00 PM Palavrinhas:


Segunda-feira, Agosto 20, 2007


Faz frio. O termômetro marca entre 18º e 20º. Pedimos batatas recheadas e eu encolho o que ainda resta dos meus braços descobertos. Ele busca um casaco no carro, me visto. Ficamos ali, olhares entrelaçados, mãos muito próximas e pequenos gestos de carinho. Somam-se anos, mas poderiam ser dias. Tanto faz conversar ou ficar em silêncio, quando a boa companhia deixa os problemas parecerem menos urgentes. É que há coisas mais interessantes. E mais gratificantes também. Como quando você pergunta: - E aí, quer fazer o que? E, sem esperar, ouve a resposta: - Te fazer feliz. Não é isso que faz a vida valer mais a pena, afinal?

postado por: Luisa 9:49 PM Palavrinhas:


Sexta-feira, Agosto 10, 2007


(...)

Em geral, quando me perguntam como estou, limito minha resposta a um 'tudo bem' que, se não me soa falso, não diz tudo o que há por dizer. Muitas vezes, o papo morre ali mesmo. Por dentro, um "mas..." incessante, no entanto, insiste em me consumir. Um turbilhão de pensamentos, desejos, idéias, planos, angústias e dúvidas. Por fora, quem é capaz de notar? Sem dizer, pode alguém adivinhar? Ando um tanto guardada, contida, reticente até... sei pouco da arte de externar tudo aquilo o que se sente. Não é má vontade, é apenas não saber nem por onde começar. As conversas, os diálogos, em maioria, tão vazios de significados. Enquanto isso, assisto programas, filmes, passeio por blogs e textos alheios, me nutro de literatura e sonhos. Busco outras histórias para me preencher. Há qualquer coisa ausente dentro de mim.

postado por: Luisa 11:53 PM Palavrinhas:


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